Durante décadas, o sistema cabruca tornou-se símbolo da cacauicultura no sul da Bahia e referência internacional de produção agroflorestal. Cultivado sob a sombra da Mata Atlântica, o cacau produzido nesse modelo ajuda a conservar a biodiversidade e mantém viva uma tradição agrícola histórica da região.
No entanto, em 2026, a cadeia produtiva enfrenta um novo desafio: a forte queda no preço internacional do cacau, que tem preocupado produtores e investidores.
O que é o sistema cabruca
O sistema cabruca é uma forma tradicional de cultivo de cacau desenvolvida no sul da Bahia desde o período colonial. Nesse modelo, parte da vegetação da Mata Atlântica é preservada, permitindo que as cacaueiras cresçam sob a sombra de árvores nativas.
Diferentemente das monoculturas agrícolas, que substituem completamente a vegetação natural, a cabruca mantém um ambiente mais próximo da floresta. Essa característica transforma as áreas de cacau em verdadeiros corredores ecológicos, capazes de abrigar aves, mamíferos e diversas espécies vegetais.
Estudos indicam que esse sistema agroflorestal contribui para a preservação da biodiversidade da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta.
Além disso, muitas propriedades diversificam a produção com outras culturas, como cravo-da-índia, banana, cupuaçu e açaí, fortalecendo a renda das famílias rurais.
O colapso nos preços do cacau
Depois de atingir valores recordes em 2024, o mercado internacional do cacau entrou em um período de forte retração.
Em cerca de um ano, as cotações globais da amêndoa chegaram a cair mais de 70% em relação ao pico registrado anteriormente, reduzindo significativamente a rentabilidade da cultura.
Analistas apontam que a queda está relacionada a fatores como:
recuperação da produção em países africanos;
redução do consumo global após a alta de preços;
aumento da oferta no mercado internacional.
Com mais cacau disponível no mercado, o preço recuou rapidamente.
Impactos no sul da Bahia
A Bahia continua entre os principais estados produtores de cacau do Brasil, e a redução das cotações internacionais tem impacto direto na economia regional.
Pequenos e médios produtores, responsáveis por grande parte da produção, sentem de forma mais intensa as oscilações do mercado. A queda nos preços pode reduzir a margem de lucro das lavouras e dificultar novos investimentos nas propriedades.
Alguns projetos de expansão da produção de cacau no Brasil chegaram a ser planejados nos últimos anos, especialmente após a valorização da commodity em 2024. Porém, com a queda nas cotações, muitos desses projetos passaram a ser reavaliados ou adiados.
Chocolate de origem e diversificação
Apesar do cenário desafiador, especialistas apontam caminhos para fortalecer a cadeia produtiva do cacau. Um deles é a valorização do chocolate de origem, movimento que tem crescido na Bahia nos últimos anos.
Pequenas fábricas artesanais e produtores rurais têm investido na produção de chocolates “bean-to-bar”, modelo em que todo o processo, da amêndoa ao chocolate, ocorre na própria região produtora.
Esse tipo de iniciativa agrega valor ao cacau e reduz a dependência exclusiva do mercado internacional de commodities.
Cabruca e o futuro sustentável do cacau
Mesmo diante das oscilações de mercado, o sistema cabruca continua sendo visto como uma alternativa importante para a agricultura sustentável.
Ao manter árvores nativas, proteger o solo e preservar parte da estrutura da floresta, esse modelo ajuda a reduzir impactos ambientais e pode contribuir para a adaptação da agricultura às mudanças climáticas.
No sul da Bahia, onde o cacau e a Mata Atlântica convivem há mais de dois séculos, a cabruca segue como símbolo de uma relação histórica entre produção agrícola, cultura regional e conservação ambiental.
Texto e Fotos: Silvana Pinto
Referências:
https://www.reuters.com/business/environment/brazils-dreams-industrial-scale-cocoa-farms-fading-after-price-crash-2026-03-12/?utm_source=chatgpt.com
https://ibcacau.com.br/cabruca/?utm_source=chatgpt.com